28 de mar de 2009

Relato de uma história


Ela conheceu alguém que se disse do interior, contava longas e lindas histórias. Era um belo contador de histórias. Até aparecia em revistas, em telas.
Atrás de cortinas de personagens múltiplos, alegres, ou tristes.

Durante muito tempo ela acreditou nesse belo e formoso contador de histórias, havia sonhado, inclusive com um texto a ser levado aos palcos, com falas de atores de verdade, ainda que fosse da vida. Eram belas palavras e contos, tantas histórias que traçavam um paralelo entre a infância e seus atuais dias...

Mas o tempo passou e seu coração já sentia dor e não alegria pelas histórias que ouvia com tanta atenção, as palavras soavam duvidosas e a esperança se transformou em angústia; o céu já não tinha cor.

A paciência ela não perdera, sentenciava-se ao ouvir histórias outras que se desfaziam com a veracidade que saltava dia-a-dia. Numa reação adversa buscou ensinamentos pelas calçadas, usou todo seu carinho na direção mas acertada e salvou sua fé pela vida.

Ainda que ela soubesse escrever tão bem e conhecesse todas as coisas e os homens, ainda assim não lhe responderia tão bem como a formação do poema que segue:


[...]Você sabe por que o mar é tão grande?
Tão imenso? Tão poderoso?
É porque teve a humildade
de colocar-se alguns centímetros
abaixo de todos os rios.
Sabendo receber, tornou-se grande.
Se quisesse ser o primeiro;
centímetros acima de todos os rios,
não seria mar, mas sim uma ilha.
Toda sua água iria para os outros
e estaria isolado.
A perda faz parte.
A queda faz parte.
A morte faz parte.
É impossível
vivermos satisfatoriamente.
Precisamos aprender a perder,
a cair, a errar e a morrer.
Impossível ganhar sem saber perder.
Impossível andar
sem saber cair.
Impossível acertar sem saber errar.
Impossível viver sem saber morrer.
Se aprenderes a perder, a cair, a errar,
ninguém mais o controlará.
Porque o máximo que poderá acontecer
a você é cair, errar e perder.
E isto você já sabe.
Bem aventurado aquele que já consegue
receber com a mesma naturalidade
o ganho e a perda...
o acerto e o erro...
o triunfo e a queda....
... a vida e a morte.

Trecho do texto
" Medo de Perder ", de
Antônio Roberto Soares

26 de mar de 2009

O que tenho feito de mim?



Based on the story "A Conversation with my Father" by Grace Paley




Sabe um daqueles momentos chatos que nos fazem refletir sobre nós?

Pois é, estou nele e dentro dele, aff!

Acabei de ler sobre o texto do
e aí mesmo percebi nitidamente essa chatice em que me encontro comigo ( sei da redundância, foi proposital necessariamente)

O texto é muito bom e recomendo. Fala de tempo esse amigo e tantas vezes inimigo que temos e jamais poderemos abrir mão dele. Não depende unicamente de nós, se ele vai estar presente em nossos dias, em nosso trabalho e muito menos em nossas amizades: outro foco do texto.

Em princípio me considero uma pessoa otimista, até que surja algo que me tire do sério, verdade: eu saio do sério e a coisa fica estranha..rs

Voltemos ao Tempo.

Na política ele tem sido implacável, pois andam fazendo com “ele” – pobre coitado – o que querem. Ficam até muitos anos num governo de m.... e mais uma vez, eu nada faço para fazer com que ele voe!!! Única chance de troca.

No estudo, pobres professores, cada vez mais pobres e ameaçados – verdade!! Eles são ameaçados por alunos, creiam, sei que algumas pessoas com certo favorecimento financeiro, ficam distante dessa fatia maior da população e por isso não acreditam, mas tenho conhecimento de causa.

No trabalho, “ele” tem feito uns estragos também. São presidentes que ficam e vão - nada dizem, quem sabe a história vai lembrá-los um dia com um belo quadro na parede? A impressão é a de que eles contam exatamente o TEMPO para descansar em sua poltrona e brincar com os netinhos amados, nada contra se não fossem os tantos mil funcionários que aguardam atitudes e menos inércia...

Não entristeçam. Poderá vir um mais jovem e certamente cheio de idealismos, fará o que todos precisamos... Mero engano. Ele pode usar o TEMPO para o seu futuro, muda daqui, muda acolá. Exonera – nomeia novos profissionais de confiança – renomeia os que estavam numa sala e os coloca em outra – aparece na mídia como o tal, sobe até morros!!!!!!!!!!!!! É necessário, não riam, por favor.

Em seu lar – doce lar! “Ele”, ainda o TEMPO parece mais implacável, o cansaço chega - as doenças em pessoas a quem você ama tanto dão sinais de que talvez não haja tanto tempo assim e sofre. Os sinais deste sofrimento surgem em nós também, porque aquele rosto tão jovem e lindo, já não está assim. As marcas das dores nos fazem calar e engasgar num soluço que teima em querer sair, o melhor mesmo é engolir, afinal : Nós somos fortes, fortes, fortessssss!! Isso é uma música.

Nas amizades, “ele” é mais feliz – às vezes – quando acima de tudo sorrimos, diante desse tempo arrumamos um “tempinho” para um bate-papo ainda que seja ao telefone, além da escassez, um chopinho surge no meio da semana fazendo quebrar as lembranças daquele tempo que gostaríamos de esquecer e fazer recomeçar.

Perdoem a falta de tempo, depois disso perdoem a minha chatice – juro : ela passa.


As Frases:

Lula diz que crise é causada por 'gente branca de olhos azuis'

Famosos participam da Hora do Planeta no Brasil e no mundo

São precisos dois para fazer a paz.(John Kennedy)

Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos. (Orson Welles)

Árvore
De vez em quando precisamos sacudir a árvore das amizades para caírem as podres. (Mário Silva Brito)


O Poema

Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria...

Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegriasozinhos...

Essa... a alegria que ele quer
João Guimarães Rosa

20 de mar de 2009




Nunca mais a tua face será viva
Nem os teus passos fugitivos
Nunca mais darei tempo ao tempo à vida.
Nunca mais tomarei a tua mão
Nunca mais amarei quem não consiga ver
Na luz da tarde vejo os destroços
Porque eu amei como se fosses vivo
Amei tua glória, teu nome e suor,
Amei-te na verdade transparente
Não me sobrou sequer tua ausência
Restou-me teu rosto invisível e negação.



"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora."
Caio Fernando Abreu

17 de mar de 2009

Pura imaginação - Poeta



No luar, vi refletir teus olhos.
Nas tuas palavras lembranças rápidas.
No vento, teu cheiro senti no ar.
Esse mesmo vento levou teu perfume.
Numa das noites, teu rosto cintilou.
Modelei o sorriso de meus sonhos
Nas sombras dos teus, vago na solidão,
Perfuro o anoitecer, imagino acariciar teu corpo
Beijar tua boca e aquecer-me em ti.
Um dia.





Dos muitos e-mails que recebi, separei este do dia 14/03

A beleza desta imagem, que pode refletir inúmeras emoções, traz-me a lembrança da grandiosidade dos poetas e poetisas que ilustram magnificamente a nossa vida, com suas poesias. Hoje se comemora o DIA DA POESIA!!

Como expressar em poucas palavras essa emoção, e como falar ao poeta e poetisa essa alegria?

Quantas vezes somos brindados com um poema que chegou num momento certo, parecendo que foi feito especialmente para a gente. E como não se surpreender e se emocionar com uma poesia que retrata tão bem, aquilo tudo que se gostaria de dizer

Ah, caro poeta e poetisa, esse belo dom que recebeste de Deus. seja sempre revelado. Não o guardes para si, mas continues escrevendo,desenvolvendo todas as emoções, falando por todos aqueles que como eu, sentem-se impossibilitados de expor tal sentimento. Impossibilitados, não por não conter uma emoção, mas por não saber aplicá-las devidamente como você, cara poetisa e poeta que receberam essa graça de Deus.

PARABENS!!!!!
E QUE DEUS OS ABENÇOE!!!!

Bea
(Beatriz Michell, obrigada)

15 de mar de 2009

VERGONHA NA CARA


Eis o porquê da expressão:


'deixar o cachorro passar e implicar com a pulga'


Isso foi exibido em todos os telejornais noturnos na quinta feira.
Paulo, 28 anos, casado com Sônia, grávida de 04 meses, desempregado há dois meses, sem ter o que comer em casa foi ao rio Piratuaba-SP a 5km de sua casa pescar para ter uma 'misturinha' com o arroz e feijão, pegou 900gr de lambari, e sem saber que era proibido a pesca, foi detido por dois dias, levou umas porradas. Um amigo pagou a fiança de R$ 280,00 para liberá-lo e terá que pagar ainda uma multa ao IBAMA de R$ 724,00. A sua mulher Sônia grávida de 04 meses, sem saber o que aconteceu com o marido que supostamente sumiu, ficou nervosa e passou mal, foi para o hospital e teve aborto espontâneo. Ao sair da detenção, Paulo recebe a noticia de que sua esposa estava no hospital e perdeu seu filho, pelos míseros peixes que ficaram apodrecendo no lixo da delegacia. Quem poderá devolver o filho de Sônia e Paulo?


Henri Philippe Reichstul, de origem estrangeira, Presidente da Petrobras. Responsável pelo derramamento de 1 milhão e 300 mil litros de óleo na Baía da Guanabara. Matando milhares de peixes e pássaros marinhos. Responsável, também, pelo derramamento de cerca de quatro milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, destruindo a flora e fauna e comprometendo o abastecimento de água em várias cidades da região. Crime contra a natureza, inafiançável. Encontra-se em liberdade. Pode ser visto jantando nos melhores restaurantes do Rio e de Brasília
.

Esta é uma campanha em favor da VERGONHA NA CARA.

13 de mar de 2009


"Quantas histórias lindas, inventadas e contadas ao pé do fogo em noites de inverno por vovós imaginosas perderam-se, foram esquecidas, por falta de alguém que as escrevesse. E, mesmo escritas, por falta de alguém que as lesse! "

Pedro Bandeira


11 de mar de 2009


Quero-te inteiro.
Sem pontos, vírgulas
Nem aspas.
Quero o teu coração
de portas abertas
em recantos em cores pra ti.
Quero-te em meu corpo
que eu seja tua tatuagem
Quero-te em minha alma
em luz sem nesga de escuridão.
Quero-te deliciosamente em minha boca
de onde escorre a vaidade da paixão
a força do vulcão frenético em ti.
Quero-te nos meus olhos
nas pegadas que leva a mulher
a criança, a fada, feiticeira.
Quero-te, simplesmente, em Amor.
Alegre, livre e feliz.

9 de mar de 2009

Inclusão Social - Blogagem Coletiva


Proposta pelo blogue €sterança

Sonhar não custa nada - dizem. E nessa linha vamos num delírio constante imaginar que somos todos iguais: os portadores dos diversos tipos de deficiência; as crianças e adolescentes em conflito com a lei ou egressas de sistemas escolares socioeducativos; a exclusão das mulheres; a exclusão de natureza socioeconômica; a discriminação que homossexuais, indígenas, negros, moradores de rua e idosos sofrem em seu dia-a-dia. Sonhar que tais exclusões ficaram para trás e adiante estaremos unidos no bem-estar comum.







Estão fazendo por ai é de bom!

“O Projeto Luz & Autor em Braille que integra o Eixo 2 do PNLL - Projetos Sociais de Leitura (www.pnll.gov.br), desenvolvido na Biblioteca Braille Dorina Nowill, em Taguatinga/DF tem uma grande e esperada novidade: a Fundação Dorina Nowil para Cegos, em São Paulo, acaba de enviar à biblioteca três exemplares do livro que tem produções de 83 cegos do DF e minibiografias de 58 escritores brasilienses participantes desse projeto.”


Leblon-RJ

"A partir do mês de fevereiro turistas e banhistas com

deficiência já podem contar com a acessibilidade

na praia do Leblon, no Rio de Janeiro "


A praia do Leblon do Rio de Janeiro tornou-se acessivel para pessoas com deficiência que, a partir deste verão, poderãodesfrutar de um banho de sol e de mar sem as rotineiras barreiras arquitetônicas comuns nas praias brasileiras.A iniciativa que recebeu o nome de Projeto Praia Acessível - Lazer para Todos é uma parceria entre as ONGs ADAPTSURF e ESPAÇO NOVO SER e visa oferecer, além do banho orientado, inúmeras atividades de lazer e de esporte para as pessoas com deficiência, cariocas ou não.


Idosos e portadores de deficiência terão credencial nacional para estacionamento


Moema Lopes com informações da PMAA Prefeitura de Aracaju, por meio da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT), vai exigir dos estacionamentos públicos da capital o cumprimento das resoluções nº 303 e 304 de 18 de dezembro de 2008 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que dispõem sobre vagas destinadas exclusivamente às pessoas idosas e a veículos que transportam pessoas portadoras de deficiência e com dificuldade de locomoção.

7 de mar de 2009

Mulher, apenas.




Sou o vento que vaga e corre
Sou a lua no céu claro que ilumina
Sou vaidosa, carinhosa e impiedosa,
Sou sincera, romântica e talentosa,
Sou vida, reflexão, coração.
Sou bela, fera e paixão.
Sou sensível, leal e sonhadora.
Sou assim, a poeta, a prosa.


Poesia e versos, a inspiração.
Sou o canto, a canção, o pecado.
Alimento a emoção por ser
Apenas mais uma mulher.

3 de mar de 2009

Escutatória

By Zé Carlos


**Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória.

Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.

Diz Alberto Caeiro que : "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma."

Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.

Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:

Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.

Daí a dificuldade:

A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...

Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.

Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...

E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade.

No fundo, somos os mais bonitos...

Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.

Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala.

Há um longo, longo silêncio.

Vejam a semelhança...

Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...

Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.

Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.

Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.

Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos...

Pensamentos que ele julgava essenciais.

São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.

Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.

Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.

Na verdade, não ouvi o que você falou.

Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.

Falo como se você não tivesse falado.

Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.

É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.

O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.

E, assim vai a reunião.

Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.

E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.

Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência...

E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras...

No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.


No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos.

Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia...

Que de tão linda nos faz chorar.

Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.

Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.

Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.


Texto ricamente recebido do meu amigo

E eu jamais poderia deixar de dividir com vocês aqui por inúmeras razões, dentre elas a de que uma das mais lindas citações - em minha opinião - é esta de Fernando Pessoa por Caeiro, a segunda por me encontrar num momento imensamente introspectivo, cujo foco principal se encontra em OUVIR.

Sim, a mediação que hoje exerço em meu trabalho tem como princípio ouvir para entender o porque de as pessoas não se entenderem. E como isso fica claro...!!! Elas (Nós) não se educaram nessa Arte Escutatória como disse tão bem o nosso autor Rubem Alves.

A tristeza dos versos anteriores, se revertem em alegrias quando me lembro desse belíssimo trabalho que hoje exerço.

Boa semana!

2 de mar de 2009

Nada a ver

Dizem que tristeza não combina comigo.
Eu também acho que não combina, destoa até,
com o ser que habita em mim!
Mas com certa freqüência, por vezes sem motivo,
eu me pego sendo "triste".

Em casa, indo para o trabalho,
ouvindo música, lendo um livro, cantando
um vazio que corrói e descobre
a impotência, a inércia
É uma sensação rápida, logo passa.
Mas volta, ainda que eu não a queira.

Como boa pretensa atriz que sou,
não falo disso com ninguém.
Nem família, nem amigos.
Muitas vezes o isolamento atua como parceiro coadjuvante.
Juntos nos encontramos - entre cenas.
E no meio do nada e do tudo
Escutamos o silêncio de uma platéia imensa.
Que aplaude o desenrolar da cena de mais um dia.

As palmas, as vaias, a cortina fechando,
O disfarce que tão bem cai num palco.


1 de mar de 2009

O tempo - Meu niver

Sirvam-se à vontade!
Obrigada pela visita.

Do tempo apenas memórias
Que passam escritas num eco
Por onde correm os ventos

Do tempo somente à volta
Renascida pelas folhas secas
Amarelecidas por ele – o tempo
Que passa...

Do tempo perde-se tudo
No infinito que o vento leva
Que passam pelas memórias.

Do tempo gravou-se nas paredes
Sujas e envelhecidas a marca.
Vital do mesmo tempo.
Do tempo que vem e passa.




Thomas Mann, in Montanha Mágica

Pode narrar-se o tempo?
Pode narrar-se o tempo, o tempo em si mesmo, como tal e em si? Não, na verdade seria uma empresa louca. Uma narração onde se dissesse: «O tempo passava, fluía, o tempo seguia o seu curso», e assim por diante, nunca um homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria mais ou menos como se alguém tivesse a ideia barroca de manter durante uma hora uma e a mesma nota, ou um só acorde e quisesse que isso fosse considerado música. Porque a narração parece-se com a música no sentido de que ela «realiza» o tempo, «enche-o convenientemente», «divide-o» e faz que «se passe qualquer coisa nele», para citarmos, com a melancólica piedade que se devota às palavras dos defuntos, algumas expressões habituais do saudoso Joachim, palavras que foram proferidas há muito; nem sabemos se o leitor dá claramente conta de quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narração, assim como é o elemento da vida: está-lhe inseparavelmente ligado, como aos corpos no espaço. O tempo é também o elemento da música, a qual mede e divide o tempo, tornando-o, simultaneamente, interessante e precioso, no que, como já foi dito, se assemelha à narração que, ela também (e de maneira muito diferente da presença imediata e brilhante da obra plástica, que só está ligada ao tempo como corpo), não é mais do que uma sucessão, é incapaz de apresentar-se senão como uma fluência, e tem necessidade de recorrer ao tempo ainda que tente ser inteiramente presente num dado momento.
Publicado por dolphin.s em novembro 6, 2003